Gene torna cães pequenos

Scientific American 09 de abril de 2007

Raças de pequeno porte compartilham variante de gene que limita crescimento.

Deanne Fitzmaurice
Cães pequenos, como o Chiuaua, possuem uma variante de um gene que codifica um fator de crescimento que os impede de crescer como o Dinamarquês.

Pesquisadores encontraram o elo que une as raças pequenas de cachorros, como Chiuauas e Pequineses. Todas elas possuem a mesma versão de um gene que codifica o hormônio de crescimento IGF1 (insulin-like growth factor). Amostras de DNA de milhares de cães, representando mais de 100 raças, foram reunidas numa tentativa de encontrar denominadores comuns genéticos na grande variedade de tamanhos e formas desses animais. Descobriu-se que as raças pequenas apresentam um trecho de DNA que aparentemente inibe a expressão do gene IGF1 e portanto influi no processo de crescimento.

Os cachorros variam em tamanho mais que qualquer outro animal terrestre, e centenas de raças foram criadas no mundo. No entanto, o novo achado sugere que um número relativamente pequeno de genes separa cães tão diferentes quanto Toy poodles e São Bernardos, segundo a líder do estudo, a geneticista Elaine Ostrander, do Instituto Nacional de Pesquisas do Genoma Humano, no estado de Maryland. “Em termos de aparência, a variação é enorme”, diz. “Seria de esperar que geneticamente a história fosse mais complicada”.

Uma equipe da Universidade de Utah havia analisado pequenas diferenças genéticas no cão d’água português, uma raça cujo peso vai de 11 kg a 35 kg. Os pesquisadores observaram que os indivíduos menores da raça compartilhavam um pedaço de DNA próximo ao gene IGF1 no cromossomo 15 (a proteína IGF1 é crucial para o crescimento dos mamíferos, de camundongos a humanos). Com base nesse resultado, Ostrander e sua equipe iniciaram a coleta do DNA de outras raças para determinar se elas também possuíam essa variante do gene.

Os cientistas colheram células da bochecha de cães e amostras de seu sangue em parques, festivais de cães e vários outros lugares. No final, conseguiram reunir 3.241 amostras de 143 raças, de Chiuauas (2 kg) a Mastifes (82 kg). Utilizando uma série de pontos de referência genéticos, Nathan Sutter, pesquisador do laboratório de Ostrander, encontrou uma pequena região próxima ao IGF1 que apresenta mais de 12 ligeiras variações. Porém, segundo ele, “encontramos uma assinatura muito específica em todos os cães de raças pequenas”. Entre 549 animais de 14 raças com menos de 9 kg, 510 continham a mesma forma do IGF1. Esse achado foi publicado na revista Science desta semana. Entre cães com mais de 31 kg, menos de 10% possuíam essa variante. A maioria possuía uma entre duas variantes mais comuns.

“Ficamos espantados, pois isso nos diz que o gene IGF1 é um potente regulador”, diz Ostrander. A variante das raças pequenas provavelmente suprime o IGF1 e outros genes que fazem os cães maiores crescerem, afirma, acrescentando que os animais pequenos possuem uma concentração mais baixa da proteína IGF1 no sangue.

Isso não significa que os criadores poderiam desenvolver um Chiuaua de 100 kg se trocassem a variante do IGF1 por outra, diz Ostrander. Isso porque muitos genes trabalham juntos para determinar as características de uma raça, incluindo seu tamanho. Algumas raças pequenas possuem variantes do IGF1 encontradas em linhagens maiores e vice-versa, segundo os pesquisadores. Os rottweilers, por exemplo, possuem a variante comum em raças pequenas.

Faria sentido se somente alguns genes fossem suficientes para determinar uma característica como tamanho corporal, pois todas as raças de cães pertencem à mesma espécie, Canis familiaris, e a maioria delas surgiu nos últimos três séculos.

Ostrander diz que a identificação de outros genes caninos envolvidos no desenvolvimento de características como tamanho do corpo pode elucidar aspectos do crescimento e seus distúrbios – o câncer entre eles – em humanos e seus melhores amigos. Pessoas com certas variantes do IGF1 são mais suscetíveis ao câncer de próstata, nota. “Ainda não sabemos tudo o que esse gene faz”.

Os pesquisadores dizem que como algumas das raças estudadas são primas relativamente distantes, o IGF1 provavelmente teve essa função por muito tempo. O cão doméstico descende do lobo cinzento e as linhagens se separaram há mais de 15 mil anos. Equipes descobriram remanescentes de Dinamarqueses com 14 mil a 15 mil anos na Rússia oriental. Esqueletos provenientes do Oriente Médio e Europa, com cerca de 10 mil a 12 mil anos, lembram pequenos Terriers, o que sugere que uma versão primitiva dessa raça existe desde essa época.

-JR Minkel