Inseminação artificial, fecundação in vitro e cesariana em cães com foco na seleção.

A biotecnologia no geral trás uma série de vantagens e facilidade para um criador, porém como toda tecnologia ela deve ser usada com responsabilidade. Inseminação artificial, fecundação in vitro e cesariana não fogem a regra. Vejo um aumento no uso destas técnicas na cinofilia, mas sem as análises das seleções de caracteres que isto acarretará.
A inseminação artificial permite que o uso um cão para reprodução de outro continente (se quisermos) com grande facilidade de transporte. A fecundação in vitro permite que implantação de embriões da fecundação dos cães de interesse em outro cão e a cesariana pode salvar a vida de uma cadela e de seus filhotes caso dê algum problema no parto. Porém vemos o usos das técnicas não para isto e sim para outros objetivos contestáveis. Vou me ater apenas a inseminação artificial e cesariana que são mais comuns na cinofilia.
Em relação a inseminação artificial o que vejo são muitos criadores e proprietários levando seus cães para cruzar, caso o macho não monte na fêmea fazem uso da inseminação. Em alguns casos, sabendo que o cão terá dificuldade de montar, á inseminação já é a opção inicial. Isto trás sérios problemas, pois uma fêmea recusar um macho pode estar ligado a seleção instintiva dela em relação ao cruzamento (algum problema genético que ambos compartilham e que pode se expressar). Dar preferência a inseminação acaba selecionando cães que não sabem cruzar e esta característica se torna cada vez mais frequente na população. A inseminação artificial só deveria ser usada com cães machos comprovadamente reprodutores eficientes, para eliminarmos o segundo problema citado, não como auxílio e sim como ferramenta para manutenção da variabilidade genética, com cães que estão longe ou até mesmo que já morreram.
Quanto a cesariana, observamos que em algumas raças mais de 70% dos filhotes nascem por esta técnica atualmente, muitas vezes nem se espera a fêmea entrar em trabalho de parto, a cesária é marcada. Isto acaba selecionando fêmeas com problema de dilatação de bacia e de baixa contração uterina, fêmeas que não conseguem ter filhotes naturais. Não nego a técnica, mas ela deveria ser usada quando necessário e se isto for no primeiro parto a fêmea e seus filhotes deveriam ser retirados da reprodução.
A biotecnologia nos permite uma série de variáveis, temos que saber usá-las com sabedoria, pois caso contrário podemos ter mais problemas do que vantagens.
Thiago Mendes

Criação por humanos modificou o cérebro canino

Scientific American 18.08.2010

Ferris Jabr
Pomakis Keith/ Wikimedia Commons
Bulbos olfativos mudam de posição em certas raças

Compare o pequeno chihuahua com o assustador dogue alemão, ou com o ágil greyhound. Muitos cientistas concordam que isso mostra a variação morfológica do cão doméstico mais do que qualquer outra espécie conhecida, graças à criação seletiva dos seres humanos. Mas as raças dos cães diferem em mais do que suas aparências. Um novo estudo sugere que as preferências humanas alteraram dramaticamente a estrutura e função do cérebro de certas raças, modificando o sentido do olfato e do comportamento.

Em um estudo publicado em PLoS ONE, o neurocientista Michael Valenzuela, da University of New South Wales na Austrália, investigou um aspecto da anatomia canina que não tem recebido muita atenção em pesquisas anteriores: a posição do cérebro dentro do crânio. Todos os cães, não importa a raça, pertencem à mesma subespécie (Canis lupus familiaris) do lobo cinzento (Canis lupus), do qual foram domesticados. Os lobos cinzentos têm crânios relativamente longos. Em contraste, os crânios de cães domésticos variam de um extremo ao outro: do pastor alemão ou um husky siberiano para um terrier ou um bulldog. Valenzuela e seus colegas queriam determinar se as diferenças artificialmente selecionadas no comprimento do crânio entre as raças dos cães também reorganizaram o cérebro canino.

Os pesquisadores usaram a ressonância magnética para mapear o cérebro de 11 cães. O grupo era constituído por um akita, um maltês, um bullterrier, um shih tzu, um galgo, um Jack Russell terrier, um pit Bull e entre outros. Uma vez que eles adquiriram as imagens cerebrais, os pesquisadores analisaram a posição global do cérebro no crânio e estimaram qual o volume relativo do bulbo olfatório – tecido neural responsável pelo processamento de aromas, que no lobo é aproximadamente 40 vezes maior que nos seres humanos em relação ao tamanho total do cérebro. Os pesquisadores também calcularam o índice cefálico (IC), dividindo a largura do crânio pelo comprimento e multiplicando por 100. Quanto maior o IC, menor o comprimento do crânio e vice-versa.

Os cães com o menor crânio, como o pit bull, akita e shih tzu , demonstraram uma reorganização cerebral significativa. Nos cães de focinho curto, os bulbos olfativos tinham mudado de posição em direção à base do crânio. Em outras palavras, os resultados implicam que, quando a reprodução seletiva por seres humanos determina as raças do cão, também transforma seus cérebros. A criação seletiva pode ter “tirado” dos cães de focinho curto seu sentido olfativo apurado.