Evolução e comportamento

Cães domésticos são lobos que sofreram seleção para domesticação, este processo, na maioria dos casos, consiste em selecionar os animais com comportamentos mais infantis. Eles continuam sendo lobos, podemos classifica-los em uma subespécie, Canis lupus familiaris, mas não em uma espécie distinta, visto que as diferenças genotípicas são mínimas. Algumas pessoas no mundo da cinofilia defendem a ideia de que cães não são lobos, para defender esta ideia afirmam que: a convivência com o homem fez surgir mutações que favoreciam a relação, porém isto é uma visão Lamarckista do processo evolutivo e não Darwiniana. Mutações ocorrem ao acaso e não por necessidade. As poucas mutações que diferenciam cães e das outras subespécies de lobos não tem relação direta com o processo de domesticação. Mas claro que existem grandes diferenças fenotípicas entre lobos e cães, elas são decorrentes da seleção de genes já existentes em lobos. Nós humanos selecionamos os lobos mais “bobinhos”, os mais infantis, ou que eram mais submissos, os com tendência a ômega; não era interessante para o convívio um lobo que disputasse a posição de alfa do grupo com um humanos, ou agressivos. Esta seleção ao longo do tempo gerou lobos infantilizados, nossos cães. Se observarmos lobos jovens com menos de 9 meses vemos muitas semelhanças entre eles e nossos cães, tanto características físicas como comportamentais, latir é um exemplo, vemos lobos adultos latindo, mas em raríssimas ocasiões. Comportamentos complexos como pastoreio, guarda e patrulha de território são traços de comportamentos observados em lobos, nós apenas selecionamos.

Entendendo a taxonomia para compreender a evolução canina.

A classificação biológica proposta por Lineu agrupa os seres vivos por grau de similaridade, nos seguintes grupos: Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero e Espécie. Pode haver sub e super grupos, por exemplo o termo subespécie. A classificação se baseia em proximidade evolutiva, antigamente usávamos os fenótipos para comparar, atualmente o genoma de cada espécie é uma das melhores ferramentas para este tipo de análise. O nome de cada Espécie é comporto por duas palavras e primeira indica o Gênero, deve ser escritos em destaque com a inicial do Gênero em maiúscula, exemplo Canis lupus. Alguns taxonomistas defendem o uso de subespécies outro a transformação de muitas subespécies em espécies. Vamos seguir o que é mais comum, classificação com uso de subespécies.

O Gênero Canis apresenta muitas espécies como Canis aureus, Canis rufus, Canis simiensis . Como o foque é o cão doméstico estamos falando da espécie Canis lupus , a classificação atual divide esta espécie em muitas subespécies, dentre elas Canis lupus familiaris (cão doméstico), porém existem outras subespécies e sua distribuição segue a figura abaixo.

O cão doméstico tem maior grau de parentesco com o Canis lupus arabs que ocorre na região do oriente médio, mas o processo de domesticação provavelmente ocorreu diversas vezes e com outras subspécies, o cão atual é originário da mistura destes lobos domesticados, com carga genética maior do lobo árabe, como mostra trabalho publicado na Nature  (http://blogs.nature.com/news/thegreatbeyond/2010/03/doggies_desert_development_dec.html). Outra subespécie que apresenta grande parentesco é o Canis lulus pallipes. Duas fotos destas subespécies seguem abaixo, vale apena ressaltar que as diversas cores presentes em cães são observadas em lobos, as cores abaixo não caracterizam as subepécies.

Canis lupus arabs – Lobo árabe

Canis lupus pallipes – Lobo indiano

Mas o que é Evolução?

Teoria Sintética da Evolução se baseia em dois critérios base. Mutação alteração no material genético levando ao aumentando a variabilidade genética de uma espécie através da recombinação gênica e Seleção Natural , esta pode selecionar positivamente, negativamente ou não selecionar uma série de características. Evolução não tem métas ou guias, as mutações não ocorrem por necessidade e sim ao acaso.

No passado Jean Baptiste Lamarck propôs uma teoria evolutiva que se baseava na Lei do Uso e Desuso, quanto mais se usa uma estrutura mais ela se desenvolve e se não usa ela atrofia, e Heranças dos Caracteres Adquiridos, as mudanças passavam de pai para filho. Neste pensamento as características surgiam por necessidade, a Evolução poderia ser direcionada porém estas idéias foram derrubadas por Chales Darwin e sua Teoria Evolutiva e reafirmadas pelo conhecimento atual de Genética e de Dinâmica Populacional.

Muitas vezes não percebemos mais dizemos coisas que fogem do que é Evolução de verdade, estamos pensando como Lamarck. Um exemplo disso são as expressões corriqueira: “os dentes do siso e o apêndice estão sumindo porque não precisamos mais”, ou, “cães de pastoreio ao longo do tempo foram desenvolveram a capacidade de pastorear para auxiliar na lida”. O processo evolutivo não funciona assim, são afirmações errôneas que não refletem a Evolução.

Os cães domésticos apresentam poucas características típicas, quase todas estão presentes nas populações das outras subespécies de lobos, nós selecionamos positivamente algumas características e negativamente outras, mas elas já existiam. Selecionamos muitos genes que eram selecionados negativamente pelo meio para a formação das raças distintas.

A seleção primitiva de lobos para cães favorecia os lobos com comportamento mais infantis, estes arriscam mais, aceitam a convivência com humanos com maior facilidade e são mais dóceis. Provavelmente os primeiros passos desta seleção dependeu deles e não de nós, os grupos mais pacíficos aproveitavam as sobras deixadas pelos humanos. Em algum momento a espécie humana iniciou a seleção, esta favoreceu ainda mais os infantilizados, a análise das características dos cães atuais é um grande indício. Mas eles nunca deixaram de ser lobos, o comportamento instintivo e comunicação é muito parecido em todas as subespécies.

Lobos infantilizados.

O termo “Infantilizado” é empregado para definir um adulto com muitos comportamentos infantis ou juvenis, um adulto “bobão”. Vemos isto em humanos, existem pessoas que são mais infantis, não há nenhum problema nisso, é uma característica presente na população, porém devemos tomar as devidas proporções, um humano de comportamento infantilizado, não tem nada haver com um lobo infantilizado, visto que o comportamento juvenil de um lobo e um humano são muito distintos. Um cão mantém diversos comportamentos de lobos juvenis e não desenvolve muitos comportamentos típicos de adultos. Durante a seleção nós acabamos favorecendo os infantis.

Algumas raças são mais infantilizadas e outras menos, porém perto de uma outra subespécie de lobo, não importa a raça, o cão doméstico terá sempre comportamento mais infantil.

Definir o que é comportamento infantilizado não é simples, alguns comportamentos adultos parecem infantis, lamber a boca e balançar a cauda pode ter vários significados, o lamber a pode ser apenas uma saudação, pedido de comida ou submissão, o balançar de cauda pode ser saudação, agressão, felicidade. Nem sempre estes comportamentos são infantis, mesmo observando que ocorram mais em filhotes.

Seu cão seu lobo.

Nossa espécie apresenta um potencial intelectual muito superior em comparação com lobos, porém em nossas relações com os cães muitas pessoas querem que eles entendam a nossa linguagem, não se comunicam dentro da linguagem lupina, o cão não entende ou demora a entender. O mais fácil e lógico para relação é o homem mudar sua linguagem e não o cão, um estudo simples de comportamento ou a consulta de um “psicólogo animal” de verdade serve de base para relação. Tapas, gritos, castigo, são comportamentos observados em primatas e não em cães, eles não compreendem estas coisas como estímulos negativos e sim agressões, o mesmo é válido para apelidos carinhosos, beijos e mimos, eles não compreendem isto como estímulo positivo. Mas isto é assunto para uma outra publicação.

Thiago Mendes – Canil Moreira Mendes – Schipperke e Tervueren

www.schipperke.com.br & www.tervueren.com.br

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