Cães escolhem as pessoas mais gentis para pedir comida

Veja online 15/04/2011

Cachorros costumam observar o comportamento humano para aumentar suas chances de sucesso na busca por guloseimas, revela pesquisa italiana

Cachorros: pedir comida dá mais trabalho do que parece

Cachorros: pedir comida dá mais trabalho do que parece (John Howard / Thikstock)

Pedir comida para os humanos é uma atividade muito mais complexa para os cães do que pode parecer. Antes de se aproximar de alguém por debaixo da mesa, o cachorro já passou um bom tempo analisando o comportamento de cada pessoa no ambiente – e escolhe os mais simpáticos para aumentar suas chances de ganhar guloseimas. Uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Milão revela que os cães costumam observar os humanos ao seu redor e categorizá-los como “malvados” ou “generosos” de acordo com a maneira como tratam as demais pessoas do lugar. A partir desse ranking, os cachorros selecionam os humanos mais “dóceis” para implorar por um lanchinho.

Para realizar o experimento, os pesquisadores pediram a 100 donos de cães que fossem ao laboratório acompanhados de seus pets. No local, uma dupla de cientistas comia cereais e salsichas cozidas. De tempos em tempos, alguém entrava no laboratório e pedia um pouco da comida. Um dos cientistas prontamente compartilhava sua refeição. O outro, espantava a visita. Enquanto isso, donos e cães ficavam no canto do salão, observando tudo o que se passava.

Quando os cães eram soltos das coleiras, a maior parte deles se aproximava do cientista generoso, na expectativa de receber uma das salsichas. No geral, dois terços dos cães soube diferenciar a pessoa gentil da egoísta. O experimento mostrou que os cães pareciam prestar mais atenção ao tom de voz que os cientistas utilizaram com os pedintes, em vez da gesticulação ao entregar a comida.

Sabe-se que chimpanzés também “espiam” o comportamento dos pares de modo a concluir quais são os indivíduos mais propensos a dividir comida. Contudo, é a primeira vez pesquisadores observam comportamento semelhante em cães. O resultado foi surpreendente. “Sabemos que os cães são habilidosos, mas jamais imaginávamos que eles tiravam conclusões sobre a personalidade das pessoas apenas observando como elas se relacionam”, disse a pesquisadora Sarah Marshall-Pescini em entrevista ao jornal inglês Daily Mail.

Há 33 mil anos, o início da ‘amizade’ entre cães e homens

04/08/2011 – Veja on-line

Crânio é considerado uma raridade porque ilustra o início da domesticação do cachorro, antes da Era do Gelo. A seta indica a parte retirada pela equipe para análise de datação por carbono

Imagem: Crânio é considerado uma raridade porque ilustra o início da domesticação do cachorro, antes da Era do Gelo. A seta indica a parte retirada pela equipe para análise de datação por carbono (Divulgação/ Ovodov ND- Russian Academy of Sciences, Institute of Archaeology and Ethnography, Novosibirsk, Russia)

A amizade entre homens e cães pode ter começado há mais tempo do que se pensava: cientistas encontraram o crânio de um cão domesticado 33.000 anos atrás nas montanhas Altai, na Sibéria. O fóssil, relativo a um espécime que viveu antes da Era do Gelo, ocorrida há 20.000 mil anos, apresenta algumas das características de cães modernos. Um artigo sobre a descoberta foi publicado no periódico científico especializado PLoS ONE.

Segundo o artigo, o focinho tem tamanho similar ao de cães que habitavam a Groenlândia há 1.000 anos, e seus dentes se assemelham aos de lobos selvagens europeus que viveram 31.000 anos atrás. Isso indicaria um estágio muito preliminar de domesticação – e está longe de determinar se, naquele período, a lealdade do homem era recíproca.

Acredita-se que a domesticação do cachorro, o primeiro animal a conviver com humanos, foi um processo muito lento. A teoria mais aceita afirma que a aproximação se intensificou há cerca de 11.000 anos, junto com a agricultura. A partir daí as sociedades humanas passaram a ter excedentes de alimentos, atraindo alguns lobos mais mansos e menores. O homem oferecia comida, e o animal retribuía dando proteção contra predadores. Os mais dóceis foram ‘adotados’ pelos humanos que, por meio de seleção artificial, passaram a criar filhotes cada vez mais domesticáveis, até o ponto de se comportarem como os cachorros de hoje.

As raças caninas, contudo, são bem mais recentes. Estima-se que a mais antiga, com alguns milhares de anos de idade, seja o husky siberiano. A raça akita, do Japão, tem cerca de mil anos. Raças como o pastor alemão tem cerca de 300 anos e são frutos de seleção organizada por criadores especializados.

Nova espécie de lobo é descoberta na África

Até a análise de DNA, animal era confundido com chacais

Uma pesquisa liderada pela Universidade de Oxford descobriu uma nova espécie de lobo na África. O achado indica que os maiores canídeos chegaram à África cerca de três milhões de anos atrás, antes de se espalharem pelo Hemisfério Norte. A nova espécie é parente do lobo da Índia e do Himalaia e vinha sendo confundida com o chacal dourado. O estudo foi publicado no periódico PLoS One.

Universidade de Oxford

Espécie de lobo avistada no nordeste da África

Os cientistas coletaram uma amostra de DNA do animal e perceberam que não havia registros semelhantes no banco genético mundial. “Mal conseguimos acreditar quando isso aconteceu”, disse Eli Rueness da Universidade de Oslo (Noruega), um dos autores do estudo. A equipe encontrou exemplares da espécie no Egito e na Etiópia e acredita que ainda possa achá-los em outros lugares.

De acordo com David Macdonald, também um dos autores da pesquisa, “encontrar um lobo na África é uma notícia importante para a conservação da biodiversidade”. Para Claudio Sillero, da Universidade de Oxford, “a descoberta contribui para o entendimento da biogeografia da fauna africana, que tem ancestrais na Europa e Ásia”.

Os chacais dourados não estão em perigo de extinção, mas o novo lobo pode estar quase desaparecendo. A equipe de pesquisadores acredita ser prioridade descobrir mais detalhes sobre a espécie e mapear a localização dos indivíduos.

Cães que latem muito podem estar com depressão, diz estudo

Pesquisadores espanhóis afirmam que os cachorros que apresentam mau comportamento têm menos substâncias cerebrais relacionadas ao bem-estar do que os outros cães

por Redação Galileu
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Tenha paciência com o cachorro nervoso do seu vizinho, que não para de latir e sempre tenta lhe morder, porque ele pode sofrer de depressão em vez de ser agressivo por natureza. Essa é a conclusão de um estudo feito pela Universidade de Zaragoza, na Espanha. 

A pesquisa descobriu que os cães que apresentam mau comportamento tendem a ter níveis menores de serotonina no cérebro (substância relacionada a transtornos de humor, que tem a produção estimulada por medicamentos antidepressivos) e cortisol (hormônio ligado ao estresse) do que cães mais calmos e felizes. Em humanos, a queda de serotonina é normalmente conectada a problemas como depressão e ansiedade, por exemplo.

Os autores do estudo analisaram amostras de sangue de 80 cachorros de dois hospitais veterinários após seus donos reclamarem que os animais eram agressivos. Os resultados foram comparados com amostras de sangue de 19 cachorros com o comportamento considerado “normal”. A pesquisa, que saiu na publicação científica Applied Animal Behaviour Science irá colaborar com o diagnóstico da depressão canina e facilitar a elaboração de novos tratamentos para problemas de agressividade, que poderão ser feitos à base de antidepressivos.

Cães podem ajudar criança a aprender

Pesquisa mostra que a presença de cachorros ajuda em aulas de leitura

por Redação Galileu

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A pesquisadora Lori Friesen, da Universidade de Aberta, provou que o convívio com cães pode ajudar no aprendizado das crianças. No estudo, ela levou dois cães, chamados Tango e Sparky, para acompanhar as aulas de crianças de 6 a 7 anos. Segundo o site EurekAlert!, companhia canina melhorou o desempenho escolar. 

Segundo Lori, o período dos 6 aos 7 anos é essencial para determinar se a criança será um adulto leitor ou vai fugir do livros pelo resto da vida. E os cães se mostraram um importante motivador para as crianças adquirirem o hábito. Uma vez por semana, a pesquisadora levava um de seus cachorros para as aulas de escrita e leitura que ministrava. Segundo Lori, os cães ajudaram particularmente aquelas crianças que tinham problemas na hora de ler em voz alta.

A cada nova palavra que os alunos desconheciam, a professora explicava seu significado e eles ensinavam a nova palavra ao cachorro. A presença do animal era encarada pela turma como a de mais um amiguinho, dando mais confiança aos alunos e criando um ambiente que favorecia o aprendizado.

“Um terço dos alunos começou a ler ou escrever com seus próprios cachorros, em casa”, diz a professora. “As crianças estavam constantemente aprendendo e se encantando com os textos. Afinal, é assim que a criança deve encarar a literatura.”

Animais foram essenciais para evolução humana

Pesquisadora afirma que domesticação de cães, gatos e gado ajudou a desenvolver habilidades

por Redação Galileu

 Shutterstock

Os cachorros, gatos e outros animais domésticos tiveram um papel importante na evolução dos seres humanos, de acordo com uma teoria da paleoantropóloga Pat Shipman, da Penn State University. O hábito de acolher e usar os animais incentivou o desenvolvimento de algumas habilidades humanas, como a linguagem e a confecção de ferramentas.

A principio, pareceria estranho adotar animais como cães e gatos, pois sustentá-los seria um gasto muito grande de recursos. Mas as pessoas convivem com os animais em qualquer cultura do mundo. A explicação de Shipman é que essa adoção seria vantajosa para nós e começou na época em que estávamos deixando uma dieta majoritariamente vegetariana para uma voltada ao consumo de carne.

Segundo Shipman, essa foi uma mudança muito rápida e estranha para qualquer animal. “Foi um atalho no processo evolutivo, já que não temos os equipamentos para sermos carnívoros”, disse ao Discovery News. Isso aconteceu com o desenvolvimento de ferramentas de caça, que permitiram ao ser humano competir com os outros predadores. Tivemos que inventar equipamentos, aprender a caçar e matar, e acabamos levando alguns animais para caçar conosco, como os cães.

Outros animais foram domesticados para nos servir leite, pele e carne. Cuidar desses animais requer muito conhecimento e um modo de transmiti-lo. As línguas tiveram que se desenvolver para superar esse desafio. Um dos sinais da importância dos animais para os primeiros seres humanos, segundo a pesquisadora, é o fato de eles estarem representados na maioria das pinturas rupestres.

Shipman ainda diz que, enquanto nós alterávamos a genética de nossos animais intencionalmente, eles também nos transformaram. Nos cruzamentos que selecionávamos, acabamos escolhendo os animais mais dóceis e proveitosos para nós. Ao mesmo tempo, os cães acabaram selecionando os seres humanos mais generosos e que estavam dispostos a adotar um animal, e os ajudou a sobreviver, colaborando na caça e protegendo suas casas.

Com a palavra o cão

EDSON FRANCO (Revista Galileu 11/2009)

Você acha que sabe tudo sobre o seu bichinho de estimação? A ciência está mostrando que ele não concorda com isso

O tempo em São Paulo não tem ajudado. Apesar das chuvas, o cocker Chico passeia diariamente. Nos dias ensolarados, seus donos, o casal Nívia e Vitorio Buzatto, vêm com a coleira, e Chico saltita e abana o rabo diante da perspectiva de ir para a rua. Mas, quando eles se aproximam com a capa de chuva, Chico fica cabisbaixo, inquieto e até recurvado. No diagnóstico dos donos, o cãozinho está contrariado por ter de enfrentar o aguaceiro. Mas, na cabeça de Chico, o problema é a capa. Muito mais do que desconforto, aquele pedaço de plástico amarelo traz à memória do bicho uma experiência humilhante.

Os cães vivem em comunidades – famílias ou matilhas – nas quais compõem sistemas hierarquizados. Quando isso se dá na nossa casa, tudo fica mais fácil. Humanos são “donos” e, agradecidos, os bichos obedecem. Sem essa ordem, o cão resgata o comportamento de seus ancestrais, os lobos. Nas alcateias, para atingir o posto de dono do pedaço, um lobo tem de subjugar seus adversários, usando a força para pressionar as costas, o pescoço e a cabeça. Exatamente os pontos tocados pelas capas de chuva.

Conclusões como essa são os primeiros resultados de uma série de pesquisas recentes que escancaram uma verdade: dedicadíssimos quando o assunto são os primatas, os cientistas foram relapsos com o nosso melhor amigo. Até agora. Para reparar isso, a nova leva de pesquisadores começou seus estudos constatando que o maior obstáculo para a compreensão do que se passa na cabeça dos cães é o homem. Mais exatamente, o antropomorfismo, esse hábito que temos de transferir para os cães impressões, sentimentos e atitudes que são nossos.

Isso não significa que essas novas pesquisas estão aí para aniquilar a ideia de que os cães podem ser – ou estar – ciumentos, amorosos, tristes, radiantes, questionadores ou deprimidos. Para os cientistas, o desafio é tirar o discurso da boca dos humanos e permitir que os cães falem por si.

O exemplo mais popular dessa abordagem chegou às livrarias do Hemisfério Norte em setembro passado e, já na estreia, alcançou o 16º lugar na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Trata-se de Inside of a Dog: What Dogs See, Smell and Know (Dentro de um Cão: o que Cães Veem, Cheiram e Sabem, ainda inédito no Brasil), livro de Alexandra Horowitz, cientista cognitiva e professora de psicologia na Universidade Columbia, nos EUA. “Nós sempre falamos sobre como os cães são, o que eles sabem, o que experimentam. Tudo sem observar cientificamente ou interagir com eles. Alimenta esse tipo de postura o fato de considerarmos os cães como ‘pequenos humanos’. Menos espertos e sofisticados, mas variações da gente”, afirma a autora.

O cão tem um relógio interno dotado de um mecanismo com o qual investiga o ar do ambiente ao longo do dia. com isso, ele identifica, por exemplo, a corrente de ar mais fresca quando o sol se põe. e é assim que ele sabe a hora de acordar, comer ou fazer uma siesta

 

EM PELE DE RAPOSA

Em iniciativas separadas, Alexandra e os psicólogos cognitivos Brian Hare e Marc Hauser – leia quadro na página 50 – retomam o estudo dos cães do ponto em que a visão humana das coisas começou a atrapalhar: a domesticação, iniciada cerca de 15 mil anos atrás. Para chegar lá, tiveram de viajar no tempo e no espaço. Especificamente para 1959 e para a cidade de Novosibirsk, a maior da Sibéria, distante 2.821 km de Moscou.

Ali, o geneticista Dimitri Belyaev fez um estudo com raposas – parentes distantes do cão e do lobo. A estratégia era chegar perto da jaula e oferecer comida ou afagos. A maioria fugia, mas algumas raposas se entregavam às iguarias e cafunés. Selecionadas, elas se reproduziram e novas peneiras foram feitas para escolher os filhotes mais amistosos. Lá pela oitava geração, já tinha raposa abanando o rabo ao ver um humano conhecido. Cerca de 20 anos depois de iniciado o experimento, as orelhas dos animais se curvaram, as caudas encurtaram e os crânios ficaram mais largos. Nascia a raposa domesticada.

Decifrado o processo de sedução mútua que resultou na domesticação, veio a tarefa complicada de tirar o homem do caminho. “Por meio do antropomorfismo, os nossos ancestrais humanos tentavam explicar e prever o comportamento de outros animais, principalmente aqueles que poderiam virar comida ou que, pior, apreciavam carne humana”, diz Alexandra. O que era solução para os homens das cavernas virou um problema que os atuais pesquisadores resolveram com outra volta ao passado. Em 1974, o filósofo sérvio Thomas Nagel publicou o artigo “What Is It like to Be a Bat?” (Como é Ser um Morcego?), no qual critica as simplificações no estudo da mente e fala na necessidade de vermos as coisas a partir do ponto de vista das cobaias. Era o clique que a ciência precisava para estudar os cães. Para saber o que se passa dentro da cabeça deles é preciso ver, ouvir e, principalmente, cheirar como eles.

NOVAS PISTAS | O que a ciência está descobrindo sobre alguns comportamentos caninos
VISÃO >>> Só de acompanhar nossos gesto e olhares, os cães sabem onde guardamos coisas que eles adoram, como nossos sapatos e meias. Não precisam do olfato para issoSEM NOÇÃO >>> Quando leva uma bronca, o cão fica com o rabo entre as pernas devido ao tom de voz do dono. Ele não associa isso ao fato de ter detonado a mobília, por exemplo 

CAPA DE CHUVA >>> Muitos bichos não ficam confortáveis debaixo dela, pois isso lembra um passado em que os cães demonstravam superioridade ao montar uns nos outros

LAMBIDA >>> O que pode parecer um beijo carinhoso é uma investigação para constatar o que você comeu e torcer para que um pouco do alimento saia da sua boca

 

O CHEIRO

“Diferentemente da audição e da visão, no olfato os cães têm mais de um sistema sensorial dedicado a esmiuçar sensações”, diz Ádám Miklósi, líder do maior grupo de estudo canino do mundo, baseado na Universidade Eötvös, em Budapeste, na Hungria. Isso significa que, muito mais que ver, o cão cheira o mundo. E é essa a principal ferramenta para ele nos entender, conviver com seus semelhantes, diagnosticar doenças e até montar a sua complexa e engenhosa contagem do tempo.

Isso mesmo: com o que é captado por seu focinho, o cão acompanha o decorrer do tempo e data as coisas. Com nossos limitados receptores olfativos, temos dificuldade até para diagnosticar se um café foi adoçado com uma colher de chá de açúcar. Os cães são capazes de identificar a mesma colher de açúcar diluída em duas piscinas olímpicas. Essa habilidade torna fácil para eles sentir o cheiro de uma gota de orvalho se instalando e evaporando das pétalas de uma flor, por exemplo. E esse é um tipo de informação valiosa para que eles saibam se um evento é recente ou se um objeto é novo ou velho.

Ou seja, o olfato é a visão dos cães. Assim, são compreensíveis aqueles momentos em que eles recepcionam pessoas enfiando bravamente o focinho entre as coxas do visitante. Assim como as axilas e os pés – descalços, claro -, a genitália carrega odores que liberam muitos dados a respeito do recém-chegado. Privar os cães desse tipo de informação equivaleria a vendar os nossos olhos antes de abrir a porta de casa.

Nos últimos 15 mil anos os cães desenvolveram ferramentas de sedução tão eficazes, que os cientistas pendem para o lado deles na hora de responder à pergunta: “Quem manipula quem?”

 

XIXI NO TAPETE

Todo dono que se julga um especialista no comportamento canino – a maioria – é capaz de jurar que seu bicho associa uma bronca à “arte” que acabou de aprontar. Estão equivocados. Junto com focinhos que conseguem identificar se a gente fumou no dia anterior, se transou ou se comeu salmão no almoço, os cães têm um espectro auditivo muito maior do que aquele que o ser humano consegue captar. Além disso, para identificar a origem do som, suas orelhas são equipadas com no mínimo 18 músculos, o triplo que as nossas têm. Isso permite que eles virem, ajustem, foquem e direcionem os órgãos. Apesar de tamanha precisão auditiva, os cães não processam palavras, como muitos defensores dos antropomorfismos adorariam.

O que os novos estudos mostram é que os cães compreendem a entonação e a ira exalando pelos poros do dono, mas não associam isso com o xixi no tapete ou o rasgo no sofá. “Eles entendem o tom da voz, o som geral da frase e, em alguns casos, as palavras que usamos. Além disso, o período do dia e os hábitos pessoais do dono podem ajudar a dar um sentido para aquilo que o cão está ouvindo. Eles intuem que, à noite, é muito maior a chance de você dizer ‘hora de ir pra cama’ do que ‘o que você quer de café?’”, diz Alexandra.

Há um componente entre as habilidades caninas que intriga os cientistas e vem derrubando e construindo certezas. Ao lado dos humanos, os cães são a única espécie capaz de entender o que significa um dedo apontado em determinada direção. Nem os primatas, nossos parentes mais próximos, têm esse talento. Os pesquisadores acreditam que isso evoluiu devido a dois fatores: os cães nos encaram destemidamente – em outras espécies o contato olho no olho é visto como uma ameaça – e eles prestam uma atenção inabalável em tudo o que fazemos com os nossos gestos e olhares. Assim, mesmo sem auxílio do faro, eles sabem onde guardamos objetos que para eles são relevantes.

Alguns cientistas defendem que essa dedicação para acompanhar todos os nossos movimentos vai muito além da mera curiosidade. Publicado em setembro passado, um estudo liderado por Josef Topál, cientista cognitivo do Instituto de Psicologia da Hungria, mostrou que essa atenção que os cães nos direcionam é um dos traços que mais nos aproximam. Na frente de bebês de dez meses, os pesquisadores esconderam brinquedos sob copos.

Eles apontavam para aquele sob o qual estava o brinquedo, e os bebês indicavam o mesmo e acertavam. Fácil demais, até porque eles tinham visto o objeto ser levado para debaixo do copo. Depois, os cientistas passaram a apontar para o copo errado, e as crianças erraram junto. Por fim, retiraram-se da sala e passaram a manusear os copos por fios no teto. E os bebês acertaram todas as vezes. O teste foi repetido em cães, e os resultados foram exatamente os mesmos.

Como os bebês, os cães deixam de lado as suas próprias impressões, certezas e ideias e seguem as nossas. Sem pensar, sem questionar, sem reclamar caso algo tenha dado errado. Essa é mais uma das ferramentas de sedução que nossos amigos de quatro patas vêm desenvolvendo e usando com eficiência exemplar ao longo dos últimos 15 milênios. Até o dia em que os cientistas apareçam com novas conclusões surpreendentes a respeito do comportamento canino, tudo bem a gente continuar chamando isso de amor.

MAIS RESPOSTAS | EUA montam dois grandes laboratórios totalmente dedicados ao estudo dos cães

Talvez no ano que vem a gente tenha de fazer outra reportagem sobre os cães só para atualizar você com as descobertas prometidas para os próximos meses. Só nos EUA, dois grandes centros para o estudo da cognição canina foram abertos neste ano.

Liderado pelo professor de antropologia evolutiva Brian Hare, o Centro de Cognição Canina da Universidade Duke está aceitando a inscrição de donos interessados em emprestar seus bichos para o estudo. A intenção é juntar o maior número possível de cães para pesquisar três aspectos: o efeito da domesticação na cognição, as diferenças entre as raças na resolução de quebras-cabeças e os bloqueios cognitivos.

Segundo Hare, apesar de o objeto de estudo serem os cães e as conclusões imediatas dizerem respeito a eles, muitas respostas sobre seres humanos podem aparecer durante as pesquisas, inclusive para a mais importante delas: “Como ficamos tão espertos? A pesquisa pode sugerir se isso decorre do fato de termos nos tornado mais amistosos ou de termos, como os cães, resultado da cruza de ancestrais que selecionaram parceiros cada vez mais inteligentes”.

O também recém-inaugurado Laboratório de Cognição Canina da Universidade Harvard tem métodos parecidos mas objetivos um pouco diferentes. Ali também os cães vêm de donos interessados em emprestar seus bichos para a ciência. Liderados pelo psicólogo cognitivo Marc Hauser, os pesquisadores de Harvard procuram decifrar como os cães reconhecem padrões de sons, pensam sobre eventos e coisas e tentam entender o que os donos acreditam, desejam e pretendem.

Quando as respostas das duas pesquisas começarem a aparecer, finalmente vamos estar mais perto de olhar para um cão correndo atrás do pneu de um carro e dizer: “Eu sei o que ele está fazendo”.

Cachorro surgiu no Oriente Médio, mostra análise de DNA

18/03/2010 – 09h17

RICARDO MIOTO
da Folha de S. Paulo.

Adaptação de trabalho publicado originalmente na “Nature”http://blogs.nature.com/news/thegreatbeyond/2010/03/doggies_desert_development_dec.html

Um São Bernardo é tão diferente de um chihuahua que nem parecem ser da mesma espécie. Mas o maior estudo genético já feito sobre cães domésticos acaba de mostrar que, no seu DNA, as várias raças de cachorro são ainda mais parecidas do que se imaginava.

Enquanto a maioria das diferenças de peso e altura em humanos e outros animais envolvem um punhado de genes com efeitos individuais pequenos, em cachorros um único gene é responsável por mais de 50% da variação no tamanho do corpo, por exemplo.

Os cientistas conseguiram também apontar o local onde os primeiros lobos foram domesticados: no Oriente Médio, e não no extremo Oriente, como se pensava.

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Eles puderam chegar a essa conclusão analisando o trechos do material genético de mais de 900 cachorros de 85 raças e de lobos do mundo inteiro. Assim, foi possível criar um grande retrato de família, montando uma árvore genealógica da espécie.

Ela é bem inesperada, porque a localização geográfica das raças não parece ter relação com as diferenças genéticas entre elas –ao contrário do que ocorre com espécies que evoluem naturalmente. Afinal, é a seleção artificial humana, não a seleção natural, a principal força a guiar a evolução canina.

As pessoas escolhem os animais que vão sobreviver utilizando critérios como a docilidade, a beleza, a utilidade na caça ou com rebanhos. A seleção artificial faz com que as características da região onde o bicho vive não sejam tão importantes quanto a vontade dos criadores na determinação das suas características.

Os cientistas perceberam como a domesticação podia causar grande impacto nos animais na década de 1950. O soviético Dmitri Belyaev, na época, selecionou por seis gerações os filhotes de raposa mais dóceis para se reproduzirem. Ao final, os animais eram ávidos por contato humano e até ganharam características físicas que humanos consideram simpáticas, como orelhas caídas.

Origens

A seleção artificial aconteceu com força em dois momentos, diz Robert Wayne, biólogo da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Ele é coautor do estudo, que envolveu um grupo de 36 cientistas e sai na edição de hoje da revista “Nature”.

O primeiro momento ocorreu no próprio Oriente Médio, quando surgiram cerca de 20% das raças atuais. Foi quando surgiu a agricultura, há 10 mil anos, que os laços entre humanos e cachorros se estreitaram. “Nessa região, eles são encontrados enterrados com as pessoas. Em um caso, um filhote foi enterrado nos braços de um homem”, diz Wayne.

O outro foi no século 19, quando virou moda criar novas raças de cachorros e apareceram 80% das atuais, dizem os cientistas. Na época se fortaleceu o conceito de “pureza” das raças, surgindo, a partir de então, animais com todo tipo de comportamento e porte.

A partir da 2ª Guerra Mundial, o pedigree se tornou mania entre quem queria comprar um cachorro. O que os cientistas questionam agora é se tal esforço pela purificação das raças é saudável. A falta de variedade genética pode facilitar a proliferação de doenças.

Cientistas suíços descobrem os restos do cão mais velho do mundo

Veja online 02/08/10

Restos analisados têm mais de 14 mil anos

Lobo em área de proteção dos Estados Unidos: cães modernos são descendentes dos lobos, domesticados há milhares de anos

Lobo em área de proteção dos Estados Unidos: cães modernos são descendentes dos lobos, domesticados há milhares de anos

Desde o século 19, os restos do que pode ser o cão mais velho do mundo, encontrados em uma caverna da Suíça, careciam de uma análise para confirmar o título. Mas, nesta segunda, foi divulgada uma análise que confirmou que os fragmentos de um crânio e dentes achados na caverna de Kesslerloch, em 1873, no norte da Suíça, têm mais de 14 mil anos.

“Durante uma nova análise dos restos animais, nós identificamos um fragmento craniano e dentes do cão doméstico”, disseram os cientistas da Universidade Tuebingen, da Alemanha,  em um artigo publicado no International Journal of Osteoarchaeology. “O grande fragmento de maxilar foi diretamente datado de 14.100-14.600 a.C.”, afirmaram.

“O fragmento de maxilar agora deve ser considerada a evidência mais remota indiscutivelmente relacionada à evidência de um cão doméstico”, acrescentaram.

A alegação deve-se ao fato de que arqueólogos belgas afirmam ter descoberto o crânio de um cão com 30 mil anos, mas o cientista Hannes Napierala explicou a diferença: “Somos céticos porque os dentes são muito similares aos de um lobo”. Ao contrário, o fragmento encontrado na caverna suíça é claramente diferente dos restos de lobos, afirmaram os cientistas.

(Com AFP)

Cães são capazes de imitar movimentos feitos pelos donos

Veja on line 28/07/2010 – 12:33

O estudo concluiu que os cães têm pré-disposição para imitar os movimentos do dono e, com isso, aprender tarefas mais rapidamente

O jeito mais fácil de ensinar uma tarefa a um cão é fazer com que ele imite os gestos de seu dono. Essa é a conclusão de um estudo da Universidade de Viena, na Áustria. De acordo com a pesquisadora Friederike Range, estes animais são capazes de seguir o que faz um humano, desde que sejam ensinados e treinados para isso.

A equipe de estudiosos fez várias tentativas com um grupo de cachorros e donos, a partir de um teste de abrir a porta de uma pequena caixa com uma maçaneta. Primeiro, os homens deveriam girar a maçaneta, com a boca ou a mão, e se o cachorro conseguisse imitá-lo com sucesso recebia uma recompensa. Um segundo grupo de animais foi ensinado a fazer uma ação contrária à dos donos – se os humanos abrissem a porta com as mãos, os cães deveriam fazer isso com a boca, e vice-versa.

O estudo concluiu que os cachorros que imitavam a mesma ação do dono aprendiam a tarefa muito mais rápido. Isso mostra que os animais têm pré-disposição a imitar tarefas envolvendo mãos e patas ou boca e focinho. De acordo com a pesquisadora, o corpo canino é muito diferente do humano e, por isso, os cães precisam interpretar o que veem.

“Isso é muito importante para os animais”, destacou Range, “porque eles podem aprender aspectos do mundo sem ter que passar pela tentativa e pelo erro, que sempre oferece riscos”. A pesquisa dá suporte à teoria do aprendizado em que um sistema de “neurônios espelhados” e a capacidade de imitar são formados à medida que um animal aprende e se desenvolve – ou seja, ele não nasce com estas características.